domingo, 5 de dezembro de 2010

Habitantes de Uma Terra Solitária

E nem é tão difícil assim. Ninguém aqui tem porta trancada à sete chaves, o segredo do meu cofre é fácil, fácil. Mas verdadeiro ele é. Não inventei combinações mirabolantes de números importantes da minha vida, sem essa de data de aniversário, dia do primeiro beijo ou últimos dígitos do número do telefone da minha casa. Vai além. E o além é tão mais fácil pra quem pode. É só sorrir pra mim. Sorri com a alma, com os olhos de quem realmente vê, como quem entrega um frasco com a essência do próprio coração num gesto sem esforço. Eu retribuo sem hesitar. Minha chave é tão ingênua e bonita quanto o segredo que ela carrega. E pra quem souber encaixá-la corretamente na fechadura, eu sorrio como quem diz: "O que de mim se faz, de ti se fará, e dessa forma, eu sou aquela que você vê dentro de ti próprio."
Tudo. Tudo habita em mim, habita em você

terça-feira, 13 de julho de 2010

Na verdade quem eu sou...

Te compararão à tudo. Colocarão adjetivos ao teu lado para ver se combinam entre si, dirão certas frases para refletirem se é possível ver-te dizendo-as, se estas cabem dentro de sua boca e de sua alma. Certamente colocarão em prática alguns verbos para ver como reages diante destes e silenciosamente perceberão quais outros verbos se utilizará para revidar. E, ao final de tudo é possível que não cheguem a nenhum parecer, que não consigam desvendar nada sobre ti, se é que este era o intuito de tanta investigação.
Porque ser humano pode parecer banal, mas é tão difícil como não ser. Compreender-se por si só é, de fato, fundamental para saber jogar limpo consigo mesmo, mas nunca foi por dentro que o ser humano se bastou. Sempre foi por fora, sempre será. Porque o que o outro vê de imediato é tudo aquilo que pensas conhecer e saber como controlar, mas que no fundo é o que acaba sendo o mais desconhecido tanto para quem vê quanto para quem é. E isso é o que temos por fora e não conseguimos entender. É isso que, entre caras e bocas premeditadas na intenção de agradar teu interlocutor, se desprende do nosso controle, vai parar imediatamente dentro dos olhos daqueles que estão nos investigando e TCHUM! Aí já foi. Já mostrastes, mesmo sem nem perceber, uma de tuas fraquezas, belezas ou inquietações. Já fizestes o outro conhecer, mesmo que um pequeno pedaço, uma parte de ti que nem mesmo você sabe como controlar e entender.
Por isso me desprendo de convicções e auto conhecimentos. Não por serem banais, mas por estes nos trazerem a agradável sensação de acharmos que conhecemos cada pequeno milímetro de nossa alma (e se não conhecemos, viríamos a conhecer), sendo que isto é irreal. Quando menos se espera uma parte de ti que tu nem imaginavas existir se extrapola e sai voando direto de teu peito e pousa na cabeça de alguém. E só Deus sabe como isso acontece. Só Deus.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Prefiro um copo vazio a me contentar com meio copo cheio..."

E foram dias. Dias de puro encontro. Satisfação, dias sonhados, cansaço alegre. E ainda são tais dias, mas sempre há uma pausa. Uma pausa para um dia vazio, sorrateiro, manhoso como gato que me pede atenção e um pires de leite.
E nesse dia vazio não serei de ninguém. Não serei de mim mesma, me faltarei e faltarei com as minhas obrigações. Talvez me bata uma sensação culposa, um receio de estar falhando com tudo que me é tido como dever, mas o vazio se torna maior do que qualquer outro sentimento que eu possa ter.
E eu me afogo nesse vazio. Caio e não acho onde me apoiar, não encontro mão para me segurar. Sensação estranha. Estranha porque não me desconforta, mas sim, me alivia e me deixa com um sorriso esquisito esboçado, estranha porque percebo que o vazio não me incomoda mas me traz uma paz que quando se fecha os olhos, faz a gente enxergar mais do que podemos ver. É assim comigo. Deveria ser assim com você. Porque se eu soubesse que também se sente assim, seria mais bonito. Me traria mais inspiração, transformaria mais coisas em poesia. E é disso que eu gosto. Dessa magia encantada, inalcançável, inexistente. Porque de realidade já basta a vida que eu vivo, já basta a racionalidade que baquea todos os castelos que construo para mim. Então se te tornas vazio para mim, junta-se com a minha fantasia e torna tudo mais livre, mais vívido. Porque da junção de nossos vazios eu posso transformar-te em um campo verde, plano e lindo que me inspira a ponto de poder girar e girar de braços abertos sem perder o equilíbrio e a sanidade. Sem me preocupar com a noção do que é correto para alguém adulto fazer, sem pensar em me abster de girar e rir, perder o foco e cair, porque cair é perigoso e arriscado. Porque se caio sob nossos vazios, nada me machucará, não estatelarei no chão. É vazio, não há chão. Não há chão, não há teto, não há céu, nem inferno. Não há nada. É meu vazio. É teu vazio, é o nosso vazio irreal no meio de uma realidade racional feliz, mas que apesar de satisfatória, continua sendo real. E isso por si só se torna chata, se torna meramente... real.
Mas se não vens comigo, não há problema. Talvez tua presença preenchesse meu vazio e toda essa sensação iria embora e nada disso que se encontra aqui, agora, me faria feliz. Só tua presença. Me acostumaria com o todo cheio e não entenderia a graça de cair sem me machucar. E isso eu não quero. Não agora. Deixa pra depois. Outro dia, quem sabe. Outro ano, talvez. Outra vida, jamais.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

"Eu tenho a porra do Amor, Merda!"

Merda. De certa forma a palavra que mais me vem à mente nos últimos momentos é "merda". Simplesmente tem hora que você pensa que deu merda, que tudo virou merda, que merda. Por alguns momentos você pensa na "bosta" toda também, mas a "merda" sempre volta.

E você pode ter feito a merda. Ter feito a merda de ter investido naquele negócio que te fodeu as economias, ter feito a merda de beber demais na noite passada, ter feito a merda de se apaixonar, ter feito a merda de falar o que não devia. Mas às vezes a merda simplesmente vem.

Num belo dia de sol você está dirigindo toda feliz e cai aquele monte de bosta em cima do seu pára-brisas, atrapalhando toda sua visão. Se alguém jogou, se o destino fez alguém cagar ali na exata hora em que você passava ou se Deus resolveu sujar tua vida não importa. O que importa é que aquele monte de fezes tá ali e você precisa fazer algo para limpar.

E olha, vou ser sincera. Se ela só te atrapalhasse a visão seria simples, mas essa merda fede. Ela fede, impregna em tudo que toca, suja e te deixa enojado por um bom tempo. E isso mexe com teus sentidos, com a tua sanidade. Mexe porque você não consegue pensar em mais nada do que limpar aquela merda toda logo pra poder voltar a dirigir e seguir tua viagem.

E é nessa hora que o mais difícil se torna manter-se consciente. Manter-se consciente para poder pensar racionalmente no que se pode fazer para sair dessa situação de merda, desse monte de bosta. Pode demorar dias, meses, anos, nunca chegar, te fazer chorar, ensandecer, alucinar, cegar. Mas se você encontrar uma saída, certamente limpará tudo sem deixar nenhum resquício que afete qualquer fator sensorial em ti.

E se para você anda difícil achar a saída, eu lhe digo o que eu tenho pensado. Eu tenho pensado constantemente: "Eu tenho a porra do amor, Merda!". O amor. Sim, eu o tenho. Eu o tenho e lhe digo que ele existe, que ele é bom, que ele é belo, que ele lhe enche de vontade e esperança. Eu o tenho e posso lhe garantir que todo o clichê que o ronda é real, é mais palpável do que imaginamos, e que é só saber reconhecê-lo. Eu tenho o amor que me acolhe quando eu preciso, eu tenho o amor que me faz lutar por causas irremediáveis a fim de felicitar aqueles que eu amo. E eu tenho o meu amor por mim, o amor que me faz crer que tudo aquilo que eu exerço deve me beneficiar, que tudo aquilo que eu quero me fará sentir tudo que é possível.

E para mim o amor e a merda se relacionam nitidamente. Às vezes o amor é uma merda, a merda de tudo é um amor, às vezes o amor se transforma em merda e a merda se acaba pelo amor.

E por fim pense nos dois no sentido mais literal imaginável. Mentalize o amor como o coração vermelho carnudo com voltinhas bem arredondadas e a merda como aquela merda bem merda, que você sente o cheiro do outro lado da rua, que é visível até para quem passa a quilômetros de distância dela. Tente misturar os dois e perceba o quão incompatíveis são. Percebeu? É por isso que por mais relativos que possam ser, não os misture. Separe a merda do amor, veja o amor como fuga para a merda e, se assim desejar, veja o contrário também. Sinta como é importante se salvar de alguma forma de uma delas através da outra e entenda que, o amor sem a merda nunca seria valorizado e, pra quem está na merda e não tem amor... Se prepara que pra ti, o negócio vai feder. Por um bom tempo.

sexta-feira, 26 de março de 2010

"Mas por hoje não me peça um sorriso..."

Um ano. Há um ano eu a conheci. Tinha avisado que pensava em nos visitar, mas aí se decidiu por ir embora e retornou após algum tempo com notícias de que estava por perto. Mas, por não saber exatamente a data em que seu vôo sairia ou quando teria dinheiro para bancar uma viagem (afinal, eu não sabia de onde ela iria vir, onde ela morava ou se estava vindo de uma outra parada), chegou repentinamente numa manhã do dia 27 de março de 2009.
Ela me emocionou. Me deixou aos prantos, desolada, inconsciente. Por culpa dela eu mexi em cadáveres, cuidei de quem cuidou de mim por muito tempo, não dormi por noites inteiras, rezei por meses e acendi incensos em busca de paz.
Ela se foi e, apesar de não ter me dado bem com ela e nem esperar que ela ficasse mais, levou consigo um amor e deixou aqui uma saudade. E mais que uma saudade, deixou aqui uma união, um afeto que tinha sido adormecido e o sorriso de crianças pro meu coração.
Por fim, acho que depois de tanta enrolação, ela veio na hora certa. Fez a sua parte, terminou com uma doença que não coube a mim achar culpado, deixou uma ferida que se cicatrizaria lentamente, mas de forma serena e compreensiva.
Em diversos momentos me pego pensando quando ela virá nos visitar novamente.Parece que tem mandado seus sinais por muito tempo já e, mesmo nós aqui, estamos esgotados. Esgotados porque quando algo está errado e lhe dizem que irão consertar mas sem data estipulada, você espera. Como um armário que não fecha suas portas. Ao saber que irão consertá-lo, você espera pelo marceneiro. Se demorar muito você até esquece, deixa aquela porta aberta e nem liga mais. Mas vira e mexe, na correria que essa vida tem, você bate com a ponta do seu dedinho do pé nela e se lembra daquela maldita visita que o marceneiro faria há algum tempo atrás. E é isso que ela tem feito por muito tempo. Só que ela tem avisado que vem, mas não vem consertar nada. Vem levar embora aquilo que já se está desgostoso por aqui. Mas não se engane, não é tão fácil assim. Ninguém viaja tanto a troco de nada. Como pagamento ela deixa por aqui alguma contas. Tristeza, saudade, dor... São algumas delas. Mas eu sei, por já conhecê-la, que no final ela nos deixa alguma coisa boa. E por este fato eu ás vezes me pego desejando que ela venha logo.
Se eu me sinto mal com isso? Me sinto péssima. Mas eu espero que não vejam como maldade ou falta de coração, eu só peço descanso à todos aqueles que o merecem... Que haja paz ao fechar os olhos. Principalmente para aqueles que não se abrirão mais.




Kyoko, por tudo que plantou, muito amor; Odi, por tudo que viveu, a paz virá.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Dever de casa para os próximos anos da vida: cultivar a irresponsabilidade, deixar a filosofia descansar e resolver se equilibrar na dualidade ou deixar a corda te derrubar para um dos dois lados, ficar em cima do muro já não será mais aceitável;
evitar ao máximo as consequências da vida que podem ser descartadas, como olhos inchados, cansados e demasiadamente salinos, rostos cansados, olheiras profundas, músicas desgostosas, dias sem canto, noites sem sonhos, dias sem sonhos, noites sem sono, dias sem sono. E, caso todos os itens citados anteriormente fatalmente ocorram, que se saiba explicar o motivo pelo qual estes lhes honram.
Conferir leveza à massa densa da vida, bater a minha clara até ela ficar em ponto de neve, branquinha, levinha e delicada... Sentir o cheiro da conquista diária e saber apreciá-lo sem tentar descobrir qual será a fragância que exalará a batalha de amanhã, saborear o gosto doce da felicidade assim como se sente profundamente o gosto amargo dos problemas, saber sentir o amor... E saber sentir o amor.
Ah! Por último e definitivamente não menos importante: esquecer o medo de... o medo... Aliás, que medo?

sábado, 6 de março de 2010

Carta para quem passou...

Eu estar escrevendo para você depois de quase dois anos te espanta? Não sei explicar, tu me veio a mente e então resolvi te escrever um punhado de palavras que talvez nem irão fazer sentido pra ninguém a não ser a mim mesma.
Como você tem estado? Ás vezes me pego pensando em você, em tudo o que você pode estar fazendo de errado por aí e quantas dores ainda te assolam quando você vai pra casa. Não tenho mais aquele sentimento de tristeza quando tu me vem em mente, ou a vontade de cuidar de alguém pra tentar sanar alguns defeitos passados. Eu tenho quisto cuidados, acredita? Eu, que nunca me dei ao luxo de deixar alguém cuidar de mim, beijar a minha testa e fazer eu me sentir sem as mãos no volante, tenho quisto desesperadamente aprender a ser assim. E eu ando com um medo horroroso da vida. Um medo de tudo isso que está mudando se tornar a coisa mais feia e confusa que eu já pude ser.
E você esperava o que de mim? Uma coragem ínfima de viver, de fazer o que desse na telha como quem prova que a juventude é a época mais bela, fugaz e estúpida de todas, que eu quero consumar toda a minha vida de uma vez sem pensar no amanhã? É, eu sei, quando se trata dessas coisas sempre me vem uma vontade de ser uma dessas pessoas inconseqüentes que preferem tapar os olhos pro futuro a qualquer custo... Assim como você é, isso mesmo. Mas pra mim isso soa tão frágil, sabia? Um dia eu te admirei acho, quis agir assim como você age, mas não dá... Não sei se você me entende, simplesmente não dá. Ou eu sou forte, ou eu sou fraca demais pra isso... Mas eu nunca fui previsível, não é mesmo? Ultimamente eu tenho acordado diferente todos os dias e com uma capacidade de oscilar incrível, você que um dia me conheceu doce e cuidadosa e depois me viu desbocada e sedenta entenderia o que eu quero dizer se colocasse tudo o que nos aconteceu dentro de um período de três dias. Pois é, imagina a loucura que eu ando vivendo dentro de mim. E as pessoas ainda têm me cobrado sair pra encher a cara, dançar a noite toda e conhecer pessoas que irão fingir estarem interessadas no que você diz só pra tentarem te comer no final das contas. E eu ando tão carente de atenções. Daquela atenção besta, de alguém que te procura só pra saber como você está, como anda a vida... Eu tenho passado por muitas situações diferentes, sabe, tenho tido muito o que contar e pouca gente pra me ouvir... Mas sei lá, é da vida, eu nessa de aprender a precisar dos outros não consigo entender de onde vem toda essa minha nova fragilidade.
Mas enfim, eu vou terminando por aqui. Só lhe escrevi porque achei que seria benéfico para mim, mas se quiser responder e me contar como anda tudo do seu lado do mundo, eu teria a honra de ler. Acho que por fim eu vou aceitar aqueles convites pra sair a noite e esvaziar um pouco a cabeça. De qualquer modo estar sozinha com um monte de gente acho que será mais fácil do que estar sozinha comigo mesma, eu tenho sido um real perigo à minha sanidade mental e, uma coisa eu lhe digo: mais louca eu não fico!