domingo, 8 de setembro de 2013

Por Dias com Mais Bolos

*post original de Pela Memória do Gosto, publicado em 09/05/2012.

Aquilo havia de ser solucionado de alguma forma, o problema lhe consumia as energias, lhe devorava todas as esperanças.

Mas o que fazer? Maldita hora que saiu de casa, foi morar sozinha, cadê a mãe quando a gente mais precisa? De certo está dormindo, essa hora deve estar sonhando ter uma filha que resolve as próprias pendências.

Porque isso que era. Parecia-lhe que a vida era toda feita de pendências, a dieta que desandou, a reforma que lhe deixou só uma metade do quarto com tinta nova, a receita do bolo de banana com goiabada que ficou de pedir à avó. Tudo planejado, nada concretizado. As coisas andavam mais embaralhadas do que se podia administrar.

Ah, mas que saco, eu precisava acender um cigarro. Eu, só eu e essa noite de outono indecisa que parece implorar para o inverno que a deixe ser mais fria, enquanto o verão lhe pede que seja brisa... Mas não tem nada nos maços vazios, já estava prometido. Sem cigarros, no máximo nos finais de semana, depois daquela cervejinha na madrugada de sexta feira, um último trago que lhe transformava a promessa de parar de fumar em mais um de seus planos fracassados. Melhor ir atrás de uma xícara de chá.
Abre armário, pega a chaleira sonoramente, bate a porta com força, fazendo o resto das panelas empilhadas caírem de forma a esquematizar uma armadilha ao próximo aventureiro de cozinha que ousar procurar por uma frigideira.

Tic tac, tic tac. Esse tempo que não passa, essa água que não ferve... Mas que merda, que chá o que, eu preciso é de algo doce. Procura, procura, procura... Tinha de haver um daqueles bolinhos industrializados, pacotinho de bolo Ana Maria, uma busca inútil por algo que não haveria ali, isso ela já sabia... Esse é o mal de quem mora sozinho: não há de quem roubar doces quando se precisa devorar fervorosamente uma boa dose de glicose, não existe mais o rocambole de goiabada que o pai comprou pra comer quando chegasse do trabalho.

Mas como se sua vida se bastasse naquilo que viesse pronto da gôndola do supermercado... Vamos lá, se tem uma coisa que aprendeu bem nessa vida foi cozinhar. Abra mais armários, bata mais portas, ai meu pé panela maldita, quem foi o idiota que fechou esse armário e esmagou todas as panelas desse jeito, eu preciso da assadeira que está lá no fundo.

Bolo de cenoura. Bota aqui, mede ali, joga tudo no liquidificador. Eu quero coisa rápida, quero colocar no forno e ir sentar em frente ao computador sem lavar a louça. Talvez pudesse acender um cigarro enquanto espero. Se tivesse cigarros.

Forno pré-aquecido, assadeira untada, assar até o palito sair seco. Não abrir o forno antes de dar 30 minutos, ou o bolo fofinho vira sola de sapato. Abre, preguiça de pegar o palito, vai o garfo mesmo, bolo meio cru, fiz uma cratera no bolo, já era previsto mas a teimosia teimou, fazer o quê. Hora da calda de chocolate.

Tá aí uma coisa que nunca conseguiu se desvincular. Calda de chocolate, daquelas bem ralinhas, que caem e penetram em cada furinho do bolo, deixando aquela mordida com a surpresa de estar toda marmorizada pelo petróleo açucarado no meio e só uma casquinha bem fininha e crocante por cima. Odiava quando queria um bolo de cenoura e lhe vinham com aquele pedação laranja com um brigadeiro mole por cima. Era bom, mas tinha gosto de bolo com brigadeiro. Não tinha gosto de bolo de cenoura fresquinho que a mãe fez e guardou cortado em quadradinhos na Tupperware em cima do fogão, onde as formigas não costumavam atacar.

Quarenta e cinco minutos, cravados, a mãe sempre dizia que se passasse disso o fundo ficaria com aquela crosta beirando o queimado. Espeta o garfo de novo, sai limpinho. Tira do forno joga a calda no bolo fumegante, ela sabe que tem demasiado, mas mente para si mesma, entornando mais calda naquele buraquinho já alagado.

Não tem coisa mais aconchegante do que pedaço de bolo quente. Corta um pedaço e devora-o sentada no sofá. Três vezes.

Está farta, a barriga cheia. Talvez até enjoe durante a madrugada. Mas o coração acalmou. Amanha de manhã a gente pensa em como vai resolver aquele problema. Hoje o dia acabou em bolo. E isso nunca pode ser de todo ruim.

Até se esqueceu da vontade de fumar. Levanta e resolve ir lavar a louça antes de deitar-se. Por incrível que pareça, terminou algo planejado. Fez, assou, comeu, sujou e lavou. Até as coisas mais difíceis podem acontecer repentinamente, quando menos se espera.


Melhor deixar a mãe dormir em paz. Ela deve entender as maluquices que sonha.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Falta-me


Tenho saudades. De sentar nesse banco velho e desenrolar esse pergaminho grotesco. Tenho saudades do cigarro proibido acompanhado de um gole de indecisão. Tenho saudades até dos clichês baratos como o anteriormente citado, tenho saudades de me preocupar com as colocações.
Tenho saudades de tantas coisas envolventes, atraentes, indecentes e tenho saudades dessa evasão enorme, desse escapismo que deixa a vida tão mais bela.

Bonito seria transformar saudade em lacuna preenchida, seria não se esquecer jamais do que verdadeiramente entranha-te a alma.
Mas não façamos de tudo isso uma nostalgia sem fim, muito menos de uma revolução solitária denunciada pelos olhares desconfiados.
Apenas não percamos nossas essências, não percamos nosso mais puro néctar....
Sereno é.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Feitiçaria da Varinha Quebrada

Cria-me neste mundo, faz de cada pedaço de minha carne um relapso bonito de imaginação proveniente de teus lindos olhos.
Porque teus olhos não te obedecem. Tão sedentos, estão loucos para profetizar aquilo que o teu mundo te proporciona como verdade, a verdade na qual queres encaixar-me. Na qual eu não encaixo-me. Talvez o único lugar do mundo onde eu não me adaptaria. De onde eu jamais pertencerei.
Mas é teu mundo, o que poderia eu fazer? Cada pedaço construído, cada argamassa que sustenta o todo veio de ti, veio da tua magnitude esforçada. Quem sou eu, mero mortal, defeituoso, torpe e humano demais? Quem sou eu para criticar tua fábula inversa, onde os humanos caracterizam-se por agirem como animais vorazes e famintos? Minha grandiosa fragilidade não saberia sobreviver em meio a este caos, onde cada árvore que cresce deve ser podada, cada estrela que irradia deve ser apagada à qualquer custo. Mesmo que apenas para teu pequenino e exclusivo mundo.
Então cria-me neste mundo. Como algo horroroso, capaz de ameaçar gigantes, de acabar com tua insegurança desfarçada. Enalteça-me como se tua intenção fosse, na realidade, ferir-me por não ser tão singular. Veja tamanha reação inversa, veja meu mundo tornando-se mais florido. Dentro do teu mundo.
Meu ego faminto agradece.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

love me


Porque há tanta pressa na busca de um grande amor? Amor pra mim é tudo igual, é igual de mãe, amigo, igual de marido e mulher e cachorro. Todo mundo tem amor, todo o mundo tem muito amor!
Não sei porque essa angústia de não poder doar-se à um certo alguém. Se tem amor pra dar, que seja distribuído àqueles que o merecem! Desperdício é deixar amor em hiatus.

Tem tanta gente te descontando raiva, vá descontar amor.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

To the left or do the right


Não é de se orgulhar, eu sei. Não para mim.
Eu sou do tipo de pessoa que vive no limite do dentro e do fora, na fronteira dos dois países. E tens idéia do porquê disso tudo? E tu achas que há um porquê atrás disso tudo?
Sabe, eu só acho mais fácil. É, isso mesmo, é mais fácil. Porque se eu corro muito pra lá, tá muito longe de quem eu sou e me dá saudade e, se eu dou mais dois passinhos pra cá, minha imensidão me sufoca. Te sufoca, sufoca a qualquer um que não está disposto a entrar em uma briga. Gente louca esse tipo pra mim, cá entre nós. Briga é coisa de machão, eu tô mais pra bebê que senta e chora pedindo colo de mãe.
Agora, que esse negócio todo anda meio esquisito, a gente não pode negar.
O pessoal anda dizendo por aí essas baboseiras, deixando escapar muito blablablá de que os ares por aqui mudaram, que a covardia apossou-se do meu território particular e que há muito permaneço sentada no meio da indiferença. E vai saber se não é, né? Quem devia se preocupar com isso não tá nem sabendo do que tá acontecendo, imagina só se vai entender alguma coisa...
E cara, olha só, admiro-te. Admiro de verdade conseguir ser assim, tão freneticamente impulsivo, com esse sentimental te transbordando pelos olhos marejados. Mas é que uma hora cansa.
Não te cansa?
Me cansou exaustivamente. É bonito, não nego. Mas tem que ter muita força. Ou muita fraqueza. E eu não sou nenhum dos dois. Eu me dei ao belo direito de não ser nada excessivamente.
Tá, tá, tá. Cale a boca e escute. Extrapolei a minha dose vital de extremos, pra mim chega. O que te parecer, é problema teu, que tu guardes pra ti, assim como me vi no dever de respeitar quem ainda por aquele território permanece. E olha, que nem acho que é amadurecimento, é ser pulga e ter saído da ponta do pêlo, é ter caído pra dentro e sentado no corpo fofinho. Muito mais confortável. EXTREMAMENTE mais confortável.
E sabe porquê? Porque achei mais fácil descer e aprender a escalar do que ficar segurando com garras ferozes no topo da montanha. Isso aí cansa demais.
E eu tô querendo é sombra e água fresca. Casinha de sapê, só se já vier mobiliada. Gente pra me visitar, beijos pra não cansar de mim mesma. Mais ou menos por aí.

domingo, 26 de dezembro de 2010



E é isso. Tomo posse de tuas palavras. Aliás, de teus pensamentos, porque apesar de não pronunciares tais fatos, eu sei que é isso. Sei que iremos nos envolver em tudo isso, nessa história de beijos e abraços que me afogam sem piedade e sem pudor, mas que por fim não nos levarão a lugar algum.
Então demonstra-me teu último gesto de carinho. Pois sei que essa imensidão toda por ti permanecerá pra sempre. Mas que encontrar-me em paz enquanto me abraças na tentativa de proteger-me do mundo nunca mais ocorrerá. Nunca ocorreu.
A gente só precisa de paz, entendeu?
Porque sei que enquanto meu coração se contrai loucamente, na tentativa de encolher-se e não mais ser maltratado, tu se vais. E me deixa com esse sorriso insensato pairando pela alma, porque de todo o meu esforço em fazer-te entender o que aqui ainda habita, a única parte que possivelmente tocou-te foi se toda aquela história cósmica sobre o destino chegou até teus ouvidos, sussurrando meu nome, ou ao menos o ruído de uma risada que certo dia demos juntos.
E então vai-te com serenidade. E espero que leves contigo esse meu último gesto de afeto, esse meu beijo na testa, esse sorriso final.
Porque de ti, por mais que não demonstres, posso sentir teu beijo apressado com o corpo já indo embora, como quem tem muito a fazer e pouco tempo para esperar pela vida, soltando minha mão devagar como num gesto que me diz "adeus e, obrigado por um dia ter me amado".

domingo, 5 de dezembro de 2010

Habitantes de Uma Terra Solitária

E nem é tão difícil assim. Ninguém aqui tem porta trancada à sete chaves, o segredo do meu cofre é fácil, fácil. Mas verdadeiro ele é. Não inventei combinações mirabolantes de números importantes da minha vida, sem essa de data de aniversário, dia do primeiro beijo ou últimos dígitos do número do telefone da minha casa. Vai além. E o além é tão mais fácil pra quem pode. É só sorrir pra mim. Sorri com a alma, com os olhos de quem realmente vê, como quem entrega um frasco com a essência do próprio coração num gesto sem esforço. Eu retribuo sem hesitar. Minha chave é tão ingênua e bonita quanto o segredo que ela carrega. E pra quem souber encaixá-la corretamente na fechadura, eu sorrio como quem diz: "O que de mim se faz, de ti se fará, e dessa forma, eu sou aquela que você vê dentro de ti próprio."
Tudo. Tudo habita em mim, habita em você